Review: A Pessoa Amada (Watashi no Suki na Hito) – por Shah Aguiar

Ano passado, a NewPop lançou 4 títulos da CLAMP. Entre eles estava Watashi no Suki na Hito, uma coletânea de 12 contos singelos sobre o amor e como lidamos com ele em nossas vidas. Cada história é contada por uma mulher diferente, da própria CLAMP ou que esteve em contato com Nanase Ohkawa de alguma forma. Pois bem, em 2008 eu conheci o volume único de A Pessoa Amada (no Brasil) por acaso, quando frequentava um saudoso fórum de cultura japonesa e afins. Foi também por acaso que, esse ano, passeando pelo estande da Comix na Bienal do Livro, descobri que havia sido lançado aqui.

Os contos são muito simples e cotidianos. Cada situação apresentada é facilmente adaptável à nossa própria realidade e, por mais que o universo do mangá represente perspectivas femininas, não duvido que um homem consiga se enxergar em algumas das histórias. Todos nós passamos por momentos de insegurança, saudade e crises na diferença de idade, além de outros, e a abordagem das personagens não necessariamente diferencia o gênero em questão. Pelo contrário, em mais de uma das histórias é apresentada também a visão e reação do homem com o qual a moça se relaciona, como no caso de “Distância” e “Quero de te ver”, que mostra o quanto o namorado também gostaria de estar perto dela, e de “Diferente”, que mostra que o rapaz também estava arrependido de uma briga e tinha sua própria maneira de pedir desculpas.

A CLAMP foi extremamente sensível ao escrever esta coletânea, expondo questões tão humanas sem colocá-las em parâmetros de certo ou errado. Em uma das histórias que mais me chamou atenção, “Juntos”, a protagonista fala:

“Muitas pessoas dizem que as garotas que mudam seus gostos e hobbies por causa dos garotos que gostam não têm autonomia. Mas não é verdade. As garotas não fazem isso forçadas. É maravilhoso gostar da mesma coisa que a pessoa que você ama”.

Com isso, tenta desconstruir a versão negativa das transformações que passamos quando começamos a namorar ou estamos com alguém, como se construir algo em comum com quem se ama fosse um crime. Eu já presenciei isso várias vezes, às vezes até comigo mesma. Os contos são assim tangíveis por se basearem em histórias reais, e algumas como “Diferente” nem aconteceram entre um homem e uma mulher, mas entre duas amigas.

Por tangível, vários contos condiziam com a minha realidade, e o que eu mais me identifiquei foi o conto “Insegurança”. O conto começa com uma moça sonhando que era abandonada de uma forma abrupta pelo namorado. De brigas comuns à morte por um grupo terrorista, o @kadudesousa tem ideia de quantas vezes também já sonhei com isso e acordei assustada. Acho que todo mundo se sente um pouco assim, da mesma forma que sentem a história de “Bonita”.

No dia anterior, a moça já havia preparado todo o seu figurino e planejado suas ações para que estivesse impecável quando fosse sair com o namorado, porque queria que o encontro dos dois fosse especial, mas eis que no dia seguinte choveu, o cabelo estragou, a roupa não era mais utilizável para um dia de chuva e ela acaba se atrasando sem saber o que fazer, o que vestir, e triste por ter dado tudo errado. Eu que nasci mestra em me atrasar e já passei por isso várias vezes, quis consolar a personagem, mas me senti feliz da mesma forma que ela quando o rapaz disse que estava linda, e que estava tudo bem.

Uma peculiaridade importante é que, diferente da maioria dos mangás da CLAMP, A Pessoa Amada não é tão carregado de costumes japoneses – xxxHolic é uma das historias de onde mais absorvi conhecimento sobre eles! – e com isso não quero dizer que não há aspectos de destaque do país. O aspecto mais perceptível é quanto à idade na história “Mais Novo”, que apesar de ser encarada de forma mais normal por aqui, lá ainda é um tabu muito forte. Fora isso, achei o mangá extremamente adaptável a realidade de outros países. Talvez por isso a ilustração da terceira página seja uma mulher com bandeiras de vários países, já que as questões tratadas não têm nacionalidade.

A edição da NewPop traz as 14 primeiras páginas coloridas e impressas em couché; a qualidade como um todo está valendo o preço estabelecido pela editora. Watashi no Suki na Hito definitivamente não é um shoujo. É um poema singelo, com histórias maduras, que traz situações que vão desde uma declaração até o casamento e nos faz entender com clareza questões cotidianas de um relacionamento a dois.

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