Neuromancer

Indicação de Setembro: Neuromancer

Inicialmente planejada para sair todo mês, a nossa coluna de indicações trará dicas de coisas novas e velhas, de livros a filmes, músicas, animês e o que mais acharmos de interessante e atual para nossos queridos leitores. Nada tão longo quanto resenhas, mas curto o suficiente para deixá-los curiosos, ou assim esperamos. Então nada melhor do que Neuromancer para começar.

NeuromancerProtestos, Síria, Coréia do Norte, Edward Snowden, espionagem, notícias recorrentes dos últimos meses. Mas o que será que estes têm em comum? Bem, não muito, para falar a verdade, mas o suficiente para nos fazer reparar que o mundo está mudando. Vivemos em um mundo novo, um quase cyberpunk.

Não é exagero. Essa semana o Fantástico revelou que a presidente Dilma foi alvo de espionagem norte-americana; mais uma das muitas descobertas feitas com a ajuda do jornalista do The Guardian, Glenn Greenwald, e de Snowden. Isso até que era de se esperar, depois que empresas revelaram dar acesso (mesmo indiretamente) aos dados de usuários à Agência de Segurança Nacional americana. No caso do Google, não é bem surpresa depois de anos de problemas de privacidade no seu serviço de e-mail e as constantes reclamações dos usuários.

Fato é que isso tudo parece pano de fundo de uma boa ficção científica. Veja Neuromancer, por exemplo, obra máxima do escritor considerado por muitos pai do cyberpunk, William Gibson.

Case é um cowboy virtual – um hacker da matrix – nascido em um mundo afetado pela Terceira Guerra Mundial. Depois de tentar enganar seu antigo patrão, foi banido do ciberespaço como punição. Isso até conhecer Molly, uma samurai das ruas que o resgata da sua própria destruição à base de dívidas e drogas.

Familiar? Provavelmente você já deve imaginar que este é o livro que serviu de inspiração para o filme dos irmãos Wachowski. Zion, Matrix, está tudo ali. O que você precisa conhecer agora é o por quê de muitos acreditarem que Neuromancer também ajudou a criar o futuro, como diz Cory Doctorow na capa da bonita edição da Aleph.

Sem entrar muito em detalhes, pois eu espero que vocês realmente leiam o livro, além de um ritmo eletrizante e excitante, há uma mistura de culturas estampadas em cada página. Mais do que a previsão dos avanços tecnológicos, Gibson conseguiu delinear uma estrutura social para seu universo fictício que pode muito bem servir de análise do período final da Guerra Fria (1984), quando o livro foi publicado.

Blade Runner

Havia aquela sensação de que os japoneses e seus produtos incrivelmente tecnológicos iriam tomar conta de quase tudo. Os grandes conglomerados. Quem viu Blade Runner sabe. Isso é revelado no livro por uma série de nomes em japonês, descrições bem apuradas de cidades e até hábitos, como dormir em cubículos.

Nós sabemos que isto está (não tão) longe de ser verdade, depois das crises que o Japão tem enfrentado, mas essa visão de Ocidente e Oriente mesclados ainda é muito válida. O que me chamou mais atenção, porém, é um outro elemento do livro: a vilã, uma Inteligência Artificial com sede no Rio de Janeiro com o nome de Wintermute.

Apesar de ser um simples detalhe, gosto de teorizar sobre o assunto. O Brasil sempre foi peça importante nas relações internacionais, por inúmeros motivos. Gibons parece reconhecer isso. Será então que à luz dos últimos acontecimentos, os protestos e os problemas de privacidade terão um impacto grande nos próximos anos? Pelo visto sim, pois já se fala em criar datacenters por aqui e registrar mascarados que participam dos protestos – muitos deles do Anonymous, que vocês devem conhecer bem. Tudo isso faz dessa leitura algo tão novo e revolucionário quanto era há 29 anos atrás. Não deixe de ler.

R$ 44,00 na Travessa.

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