The-Hobbit

Crítica: O Hobbit – por Lucas Fratini

Em uma sala de cinema foi exibido O Hobbit – Uma Jornada Inesperada. Não um filme sujo, prosaico, com problemas em todo seu acabamento e cheiro de artificial, nem um desnecessariamente esticado, lento e repetitivo: esse é um Peter Jackson’s Hobbit, e isso significa, acima de tudo, uma experiência extraordinária.

A jornada inesperada começa sua linha de fantasia no começo da trilogia anterior, costurando um bordado de infinitas possibilidades para o passado de Bilbo. No entanto, a emenda é feita de forma coerente e extremamente sutil, ao reaproveitar alguns pequenos subtextos de A Sociedade do Anel para criar, assim, uma unidade entre todas as obras. Logo, sua posição espaço temporal não é deslocada, apenas acrescenta mais veracidade à gloriosa Terra Média, desenvolvendo seus mitos e relações históricas como se estudássemos o passado em um livro didático sobre algo o qual lutamos incessantemente contra nossa própria razão para nos convencer de que nunca existiu.

O Hobbit - PosterImpressão esta realçada graças ao brilhantismo de Peter Jackson em adaptar J.R.R. Tolkien. Sua agulha é, assim como sua sensibilidade narrativa, fina e sutil, que permuta entre os mínimos furos sem esticá-los, ou abandoná-los, como o caso dos 13 anões, por exemplo, dos quais talvez apenas dois aparentem ter importância ligeira na trama, porém somam um número mínimo e condizente com a finalidade da sua Companhia: matar um dragão. Além disso, a precisão de seu pulso se traduz em movimentos de câmera belíssimos, cujas recompensas são planos limpos, dando preferência à nitidez da cena do que a poluição imagética; até mesmo nas cenas de batalha, na qual sobrevoamos e ziguezagueamos o combate, ao invés do confuso corte frenético e câmera tremida.

Portanto, a estética é algo de importância vital para o diretor, o qual aposta nos inacreditáveis 48 FPS e uso otimista do 3D. A experiência visual é simplesmente absurda devido à beleza sensível de suas imagens, as quais potencializam ainda mais o paradoxal realismo fantástico daquele mundo, principalmente no prelúdio do filme, cujos planos em câmera lenta e dentro da montanha ganham aura própria. Então, mesmo que tal formato não venha a se enquadrar no ideal de outras obras, funciona perfeitamente no universo Tolkiano por já conter em si uma propriedade surreal.

Vale ainda ressaltar a ótima trilha e a improvável atuação de Martin Freeman. A primeira, composta por Howard Shore, é capaz de trabalhar com brilhantes variações em cima do mesmo tema, por exemplo, ora de forma melancólica, pelo murmúrio dos anões, ora épica, repleta de metais em uma batalha, e ora desolada, por um gentil clarinete, sem parecer repetitiva. Assim, é reaproveitada e inserida de forma precisa por Peter Jackson, que ainda retorna às vezes ao tema do Condado, da trilogia anterior. Já a segunda, é mérito exclusivo do ator britânico, o qual dá um tom neurótico e principalmente hilário ao jovem Bilbo Bolseiro, inserindo uma potente linha de humor em seu carretel performático.

Bilbo e Anões

Contudo, único aparente problema do filme se revela, na verdade, preconceito baseado em uma constatação a priori de sua ficha técnica. Mesmo possuindo cerca de três horas, o universo diegético é tão rico e extenso que a história se alonga pela potência narrativa de seus acontecimentos, e não pela lentidão ou embromação dos mesmos, os quais necessitam claramente de uma continuação, mas funcionam por si ao apresentar e desenvolver bem a trama. Desta forma, é justamente esse caráter introdutório que pode causar certo incomodo no espectador, pelo seu desejo inconcebível de uma continuação imediata, fruto natural da sua ansiedade.

“O Hobbit – Uma jornada inesperada” é, pois, mais do que um filme, uma nova experiência por um dos mundos mais incríveis que só uma imaginação genial poderia criar. Para adaptá-lo, somente outro gênio acompanhado de uma equipe artística formidável, capaz de satisfazer todas as nuances de sua fantasia. Se deveriam ser dois, três, ou quatro filmes, agora pouco importa; é certo que não há nome mais competente para realizá-los do que Peter Jackson, e em nele deposito toda minha confiança e, mais uma vez, meu muito obrigado.

Nota: 

Autor: @lucasfratini

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