Top 5: Filmes para Pensar – por Lucas Fratini

Infelizmente, é cada vez mais comum para o grande público a ideia de que o cinema é exclusivamente uma diversão. Ao comprar um ingresso, o espectador tende a comprar uma emoção, seja o medo em um filme de terror ou os risos em uma comédia, por exemplo.

A sétima arte vai muito além da pipoca. Há um preconceito com filmes um pouco mais densos, sustentado com o argumento de que o importante é poder “desligar a mente”, sendo que, na verdade, são justamente aqueles que nos colocam em constante dúvida que mais nos surpreendem no final. Além disso, parte considerável deles também tem viés didático, podendo servir de metáforas e citações enriquecedoras em uma redação no vestibular, por exemplo.

A partir dessa reflexão, voltamos com o mensal Top 5, dessa vez sobre os cinco melhores filmes para ligar a mente!

1 – 1984

É sempre delicado falar de adaptações da literatura e o ideal nesse caso seria, sem dúvida, ler a obra de George Orwell. Porém, como nos tempos modernos o que menos se tem é tempo ocioso, o filme de Michael Radford é uma ótima saída, pois consegue passar com clareza e impacto o seu argumento principal. O grande trunfo do filme é a escolha de John Hurt como protagonista, para mim na melhor atuação de sua carreira, e a detalhada direção de arte. Juntos, eles conseguem dar uma face ao horror claustrofóbico descrito por Orwell em sua ditadura futurista. É interessante também ver a deturpação feita para mídia do conceito de Grande Irmão (Big Brother, soa familiar?) aplicado nos dias de hoje através do reality show mais popular do Brasil. Além disso, o panopticon de 1984 já inclusive fez parte do tema de redação do ENEM 2011, com uma tirinha que fazia referência direta à obra. Seja em papel ou em película, sua mensagem é essencial para qualquer ser pensante na sociedade.

2 – Cidadão Kane

O que seria hoje o cinema se Orson Welles não tivesse feito Cidadão Kane? Essa é uma perguntar sem resposta. Considerado por uma legião de críticos como o melhor filme de todos os tempos, é um marco estético e narrativo, onde cada plano é meticulosamente planejado para passar objetiva e subjetivamente uma mensagem ao espectador; é uma aula de cinema, um trabalho de gênio. Porém, mais do que mudar a história do cinema, ele também é uma critica explícita ao poder controlador e a sujeira política presente na grande mídia. A figura de Charles Foster Kane, o magnata dos meios de comunicação, é tão forte e verossímil que pode ser facilmente adaptada em qualquer época e lugar do mundo, seja no brasileiro Roberto Marinho ou no empresário norte-americano Rupert Murdoch. Em tempos de repressão e liberdade nas mídias de digitais, conhecer a obra-prima de Orson Welles e o poderoso Kane é mais que fundamental.

3 – O Show de Truman

“Ué, mas esse não é aquele filme com o Jim Carrey?” Sim, mas por incrível que pareça sua filmografia não é feita só de filmes bobos, e The Truman Show é uma prova. Escrito pelo brilhante Andrew Niccol (indicado ao Oscar pelo roteiro), o filme tem como argumento um homem cuja vida inteira foi um reality show, destacando o lado manipulador e cruel que esse estilo de programa pode alcançar. A própria escalação de Carrey é proposital pela imagem criada a priori pelo público de um personagem simpático e engraçado, dando ainda mais força para o momento que começa a indagar a própria realidade e todos os seus desejos reprimidos.

Ademais, a paranoia de Truman é tão usual que virou um diagnóstico psíquico chamado A desilusão do Show de Truman. Hoje os reality shows são cada vez mais abrangentes e populares, passando de protagonistas anônimos até lutadores, então quem sabe em pouco tempo a sua vida não pode ser um? Se ela já não é…

4 – Tempos Modernos

“Conheço esse filme de algum lugar…”, quase um clichê escolar, Modern Times é figurinha marcada para qualquer matéria ao tocar no assunto Revolução Industrial. Chaplin disfarça através das trapalhadas do personagem Carlitos uma pesada crítica ao modelo de exploração fabril do capitalismo e à robotização do operário, o qual é literalmente engolido pela máquina nesse sistema. A miséria, tema decorrente de suas obras, é vista através da cruel exploração, a qual leva o protagonista a ter um colapso nervoso e se mover como um robô. Metáfora essa já explorada anteriormente por Fritz Lang em Metrópolis, filme de 1927, tão moderno parece ter sido feito ontem. Porém, como não podia deixar de ser, Chaplin consegue encontrar uma aparente fuga no meio de toda miséria por uma improvável amizade com uma dançarina. Assim, nos apresenta também a contradição humana entre o robô operário e a leveza feminina. Pela genialidade e, acima de tudo, atualidade, Tempos Modernos se perpetuou não só na história do cinema, mas na História contemporânea como uma das maiores críticas a exploração capitalista. E Chaplin como um grande pensador.

5 – Z

Foi extremamente doloroso escolher apenas um filme do Costa-Gavras para esse Top 5. “Costa quem?!”, com uma vasta filmografia, o diretor foi capaz de abordar com lucidez escândalos políticos ao redor de todo mundo, revelando a crueldade e opressão no Chile de Pinochet em Desaparecido ou desnudado no véu católico na Alemanha nazista em Amém. Em Z, sua obra-prima, nota-se seu trabalho mais inspirado: o diretor constrói através de uma roupagem de filme policial investigativo um dualismo sobre a justiça, a qual vai se modelando aos poucos. À medida que ela ganha força, a fotografia vai se esclarecendo e a direção de arte ganha mais cor, até o impactante e perturbador final da trama. Compromissado com a verdade, é um diretor essencial para qualquer pessoa que cogita cursar direito ou deseja conhecer os absurdos políticos ao redor do mundo (não, o Brasil não é o único país assim). Além disso, é também famoso pela facilidade com que aborda temas espinhosos, sem deixar tudo chato ou lento demais. Ainda duvida de mim? É influência direta de José Padilha, recebendo inclusive uma homenagem no Tropa de Elite 2 com a exposição do cartaz de um de seus filmes. Simplesmente fantástico.

Leia Também: Top 5 – Filmes para Semanas de Provas

Autor: @morratentando

Publicado em abril 20, 2012, em Coluna do Fratini e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. robertomoscajunior1972

    Fala Fratini,

    Gostei muito do post, e concordo com boa parte das análises. Me fez refletir sobre o meu uso do audiovisual nas aulas de sociologia. Trabalho com Tempos Modernos e Citizen Kane, porém estou muito inclinado a adotar 1984 e Truman’s show…seu artigo venho em boa hora para mim. Espero que esteja tudo correndo bem com sua carreira…qq coisa que puder ajudar, é só solicitar.

    abçs.

    P.S. Você autoriza que divulgue o post nas minhas aulas!?

  2. Lucas Fratini

    Salve Professor Mosca ! Lembrei das suas aulas quando tive a ideia para o post, de quando exibiu ‘Segunda-feira ao Sol’ e ‘Tempos Modernos’.Sim, claro ! Pode divulgar, quando mais gente lendo a coluna e vendo esses filmes melhor. E obrigado pela força.

    Abraços

  3. Eu vi todos os filmes e simplesmente achei genial. E colocaria Laranja Mecânica de Kubrick ainda, mas como são cinco só…
    A Lista está otima, Lucas.

  1. Pingback: Links da Semana | Tec-Cia

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 190 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: